“As engrenagens da capitania foram devidamente azeitadas e postas para girar mais rápido. O engenho Nossa Senhora d’Ajuda, de Jerônimo de Albuquerque, logo começou a funcionar. Os colonos traziam suas canas e recebiam um vale, detalhando os descontos. Um dízimo seria destinado á ordem de Cristo, um quinto ao donatário, outro quinto para o dono do engenho. Só o restante caberia aos colonos. Houve quem reclamasse.
Valha-te ao diabo, homem! – Arengava um ex-vendeiro de Évora, degradado por roubar fregueses no peso.
Então eu derrubo a mata, ponho fogo, arranco os tocos, aro a terra, planto, colho, entrego-te cá a moenda... e só vou receber a metade?
Outros plantadores anteviram a chance de ganho extra e fizeram coro ao primeiro. Na sua diplomacia agreste, o torto ameaçou quebrar os ossos de um por um.
O Capitão precisou intervir. Sem engenho não haveria açúcar – disse.
E sem cana o engenho serve para quê? – Contrapôs com exaltada ironia o degredado, líder da pequena insurreição.
- Verdade seja. Mas... de quem são as terras onde vosmecês plantam? Quem lhes forneceu as mudas e deu crédito no armazém? Quem vai bancar o transporte até o reino? Hem? – alteou a voz Duarte Coelho, para logo depois mudar de tom. – De mais a mais, do quinto de Jerônimo, a metade vai para o mestre Saul e suas gentes, os donos do segredo de fazer açúcar. Ganhar cá de mão beijada, minha gente, só a ordem de Cristo. Mas este é o quinhão da Igreja. O Quinhão de Deus. Alguém aí é contra?”*
E foi assim que, em 1535, começou a moagem do Engenho Nossa Senhora d’Ajuda. Jerônimo, português casado com a índia pernambucana M’Uirá Ubi, filha do cacique Uirá Ubi, que depois das núpcias adotou o nome de Maria do Espírito Santo Arco Verde, senhor do primeiro engenho do Nordeste brasileiro, constituiu uma grande família. Tiveram, os dois, vários filhos, entre eles, um guerreiro reconhecido em toda Nova Lusitânia por muitas vitórias, em várias batalhas, entre elas, duas espetaculares. Recuperou a região do Rio Grande, então dominada por franceses, reintegrou aos domínios portugueses a capitania do Maranhão. Homônimo de seu pai teve por honra conferida à adição de seu nome, Maranhão, uma homenagem à reconquista. Foi o Capitão Jerônimo de Albuquerque Maranhão. Guerreiro, plantador de cana, fabricante de açúcar. Faleceu em 1618, contava, então, 70 anos de idade.
Aos onze de abril do ano da graça de 1940, nascia em Pernambuco Luiz Carlos Maranhão, descendente desta cepa de fundadores do Brasil.
Conheci Luiz Carlos no começo da década de 80 do século passado e logo descobri tratar-se de uma pessoa superior.
Aguerrido na defesa da cana-de-açúcar, tornava-se irascível se algo falado ou escrito diminuísse o Nordeste e a sua gente, em qualquer atividade de produção humana, fosse industrial, comercial ou intelectual.
Nos fizemos amigos. Com o tempo, estávamos sentados lado a lado em qualquer reunião, sobre qualquer assunto, fosse ela formal ou informal. O primeiro que chegava observava onde o outro estava. Concordávamos frequentemente, quase nunca enxergávamos de modo distinto.
Lutamos muito em várias batalhas e durante muitos anos. Vencemos as de 1992, 1998, 2002, entre as mais difíceis, em outros anos fomos derrotados. Perdemos a de 2009, ano cruel, mas a vida caminha assim.
Poucos conheci com tamanha lealdade às pessoas que lhes eram caras e às ideias que lhes pareciam corretas.
Se fez querido por muitos. Sua curiosidade, a saciava devorando pilhas incontáveis de livros, organizados em sua biblioteca com quase uma dezena de milhares de títulos. Interessava-se pelos mais diversos assuntos, mas, sobretudo, era um grande conhecedor de história e honrou o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, ocupando uma cadeira nesta conceituada casa da intelectualidade de nossa terra.
Foi admirado, escutado e observado em todas as mesas que sentou, provocando o embevecimento nos que tiveram o privilégio de ouvi-lo.
Com seus irmãos José Carlos, Luiz Ernesto e Severino Carlos, com a liderança do primeiro, construiu um dos maiores parques de industrialização de açúcar e álcool do Nordeste contemporâneo.
À família dedicou o maior do seu amor, aos filhos, e já se estendia aos netos. Seu carinho era tão especial que não estar perto dele já lhes causava uma serena e tranqüila dor em todos, por menor que fosse o tempo.
A mim, me deixou muito: inesquecíveis carinhos, conversas intermináveis, um exemplo de honradez, de lealdade e de luta. Como eu, um alagoano de Pernambuco que se sentia sempre comprometido com os avanços da maravilhosa e acolhedora terra das Alagoas.
Contudo, me deixou a maior de todas as heranças que me podia conceder. Sou amigo de seus filhos e isso aplaca a grande tristeza.
Foi o capitão Luiz Carlos Maranhão. Guerreiro, plantador de cana, fabricante de açúcar. Faleceu em 2010, contava, então, 70 anos de idade.